Sífilis: uma DST reemergente


Mozart, Schubert, Oscar Wilde, Voltaire, Nietzsche e Lênin. Mentes perturbadas, personalidades difíceis, pessoas que mudaram o mundo com sua arte, suas ideias e suas guerras. Em comum, a sífilis. Doença levada para Europa a partir do Novo Mundo – sim, ela é tão americana quanto o hamburguer, a Coca-Cola e o Donald Trump – causou furor a partir do século XVI. Doença contraída pelos marinheiros que cá estavam, transmitida às prostitutas dos bordéis do Renascimento, não escolhia classe social. Até cardeais e papas eram acometidos, apesar da recomendação do sacerdócio. Membros da realeza, trabalhadores braçais, artistas e servos apresentavam em sua pele as chamadas “gomas”, lesões dolorosas e características da fase tardia. Em uma época em que a mortalidade infantil era alta e os títulos de nobreza eram transferidos apenas aos filhos homens, a necessidade de uma prole numerosa pressionava as mulheres a terem vários filhos. Notava-se também um grande número de abortos recorrentes, um grande marcador da doença. Tempos difíceis e, para uma doença incurável na época, ter o diagnóstico da chamada “doença francesa” (ou “italiana”, ou “espanhola”, dependendo  das preferências e nacionalidades dos autores) era uma notícia estarrecedora.

Com o surgimento das primeiras drogas antibióticas, a sífilis foi rapidamente controlada. Isso, associado à revolução sexual dos anos 1960, transformou a doença em um troféu, motivo de orgulho e de virilidade. Algo até nostálgico, dado o perigo da Aids a partir da década de 1980.

Diferente do que muitas pessoas imaginam, a sífilis não foi ‘extinta’. Passou um bom tempo ofuscada por ser uma doença sem qualquer complicação se tratada precocemente e pelo perigo de outras doenças sexualmente transmissíveis. A Aids letal, o HPV causador do condiloma acuminado e do câncer de colo de útero e as feridas do vírus da herpes tomaram conta do noticiário e do imaginário popular. Agora, nota-se que os casos dessa doença vêm  aumentando, em muito devido a uma nova fase de liberdade sexual e de diminuição do uso do preservativo por uma geração que não viu Freddie Mercury, Cazuza, Renato Russo e Lauro Corona morrerem devastados pelos efeitos do HIV. Se há 10 anos ela era rara, atualmente a situação é bem preocupante. Naquela época um infectologista via cinco casos por ano, em média. Hoje, são cinco por semana.

Nesta semana o Conselho Federal de Medicina editou uma normativa orientando os médicos a considerar a solicitação de exames de sífilis, HIV e hepatites para todos seus pacientes. Esta medida visa aumentar o número de diagnósticos como estratégia para evitar a disseminação destas doenças e previnir complicações pelo diagnóstico tardio. Esta medida ressalta a importância das DSTs, em especial sífilis e Aids, para o sistema de saúde e suas implicações na população.

Mas o que é a sífilis exatamente?

A sífilis é uma bactéria que causa lesões na pele e que é transmitida pelo contato com direto dessas lesões com a pele de uma pessoa que não está infectada. Caso essas lesões estejam nas virilhas ou outras partes descobertas, mesmo o uso do preservativo não previne a infecção, pois mantém-se o contato direto com as feridas. Além da genitália, os lábios, região perineal e mamas podem ter lesões e o risco de transmissão é de cerca de 30%. Esta doença pode ser também transmitida por beijo, sexo oral ou qualquer forma de contato direto com a lesão. Transmite-se também da mãe para o feto, na chamada “transmissão vertical”.

A doença é dividida em fases e tem como principal sintoma, na fase primária, o surgimento de uma ferida indolor no local da inoculação, duas a três semanas após o contágio e que pode passar despercebida até ocorrer a cicatrização, geralmente de três a seis semanas.

Cancro Duro
Sífilis Primária

Posteriormente, inicia-se a fase secundária, quando podem ocorrer lesões avermelhadas em todo o corpo, frequentemente, nas palmas das mãos e plantas dos pés, mas que podem ocorrer em outras áreas do corpo com características semelhantes à reação alérgica a medicamentos e doenças como sarampo e rubéola, podendo ou não ser acompanhadas de aumento dos gânglios do pescoço. É importante salientar que, muitas vezes, essa fase pode ser completamente assintomática, o que inviabiliza o diagnóstico precoce.

Sifilis secundária
Sífilis Secundária

O paciente entra, então, em uma fase chamada de latente, que não terá qualquer sintoma,  durando entre 10 e 30 anos, até iniciar a fase terciária, caracterizada por lesões cutâneas, cardíacas e cerebrais que podem levar  à morte. É uma preocupação também em gestantes, pois pode ocasionar desde abortamento até malformações ósseas, surdez e retardo mental nos bebês.

Fases da Sífilis

Algumas pessoas, principalmente as que tem imunidade mais baixa por HIV, câncer ou medicamentos, podem ter complicações mais precoces, como acometindo de nervos cranianos e meningites, muitas vezes fatais.

Para o diagnóstico da sífilis devem ser solicitados exames de sangue específicos para este fim, chamados de VDRL e FTA-Abs, que são realizados em qualquer laboratório da região. Estes exames têm várias particularidades que devem ser levados em conta e muitas vezes confundem os pacientes, de modo que apenas um médico treinado pode avaliá-lo adequadamente para definir a necessidade ou não de tratamento. Outra alternativa é o chamado teste rápido para sífilis, feito com um kit disponibilizado pelo Ministério da Saúde às Unidades de Saúde e que dá o resultado em alguns minutos. Apesar da praticidade, este exame é útil apenas se o resultado for negativo. Caso seja positivo ou seja realizado em pessoas que já tiveram sífilis, o ideal é realizar os exames convencionais.

O tratamento é simples e seguro. Devem ser utilizados antibióticos específicos, sendo o mais comum a Penicilina Benzatina (Benzetacil) intramuscular, em doses que variam conforme a fase da doença. Existem opções que podem ser administradas via oral, mas não têm a mesma taxa de sucesso e devem ser utilizadas apenas em situações específicas, como alergia a penicilina, por exemplo.

Idealmente, toda pessoa que tem dúvidas ou  sintomas como esses abordados, deveria fazer a testagem, pois um diagnóstico precoce promove a cura e evita complicações.

Caso você tenha se exposto sexualmente e tem dúvidas, o melhor é fazer o exame…

Não perca tempo!

Dr Luiz Jorge Moreira Neto TRANSPARENTE FINAL

 

4 thoughts on “Sífilis: uma DST reemergente

  1. Boa noite dr.
    Eu tenho alergia a penicilina, a médica me receitou eritromicina 500ml 6/6 horas por 15 dias!
    Eu apresento sintomas de sífilis secundária, está correta a prescrição? Desde que comecei o tratamento to com dores intensas e fortes no estômago, o que fazer?

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