Repelentes naturais: Dá pra confiar?

Repelentes Naturais

 

Desde que as epidemias de dengue se tornaram mais frequentes indica-se o uso de repelentes com maior ou menor ênfase. Todavia, depois do anúncio dos casos de microcefalia por vírus Zika, a procura por uma solução que dependesse menos da indústria farmacêutica e estivesse disponível a qualquer um aumentou.

Compostos naturais, na mesma onda dos alimentos orgânicos ou isentos dos famigerados corantes e conservantes sempre agradou a mídia e muitas camadas da população. Outras vertentes, como a dos “anti-vaxxers”, ou seja, pessoas que boicotam o uso de vacinas por supostos riscos à saúde, naturalistas ou adeptos da medicina holística (seja lá o que isso quer dizer) também olham com simpatia esse tipo de produtos.

Todavia, sempre que se busca uma solução para determinado problema, deve-se questionar a validade da resposta encontrada. Muitas pessoas perguntam aos infectologistas sobre a eficácia da ingestão do Complexo B, uma associação de vitaminas em apresentação industrializada, para espantar mosquitos. Tal eficácia vem da experiência de pescadores em suas incursões pelos rios e matas: basta utilizar o medicamento por sete dias antes da viagem, e o Complexo B é expelido no suor, servindo como repelente. Recentemente, boatos em redes sociais davam como certa que a ingestão diária de 5 gotas de própolis teria a mesma serventia do Complexo B, pelo mesmo mecanismo: excreção pelo suor.

(Para quem não sabe, o própolis é composto de 55% de resinas vegetais, 30% de cera de abelhas, 8 a 10% de óleos essenciais e 5% de pólen, e é produzido pela ação de enzimas da saliva das abelhas, com função desinfetante, cicatrizante e até antibiótica. Curiosamente, as abelhas utilizam isto dentro das colmeias para se proteger e não as espanta lá de dentro, mesmo que também sejam insetos).

Em nossa região, o repelente natural de uso mais disseminado é a Citronela, arbusto muito semelhante ao capim-limão. É utilizada em horticultura, para produção de alimentos orgânicos, pois tem a capacidade de espantar moscas. Dela é extraído um óleo que tem comprovadas capacidades repelentes e que pode ser utilizado para espantar mosquitos, sendo útil nas epidemias de dengue, zika e chikungunya. Mas, atenção…

repelentes - artigo

Existem restrições ao seu uso que devem ser informadas e nem sempre são. Já que este site tem o objetivo de disseminar informações de qualidade, embasadas em literatura médica, ou seja, com comprovação científica, resolvi fazê-lo. Dado o grande número de perguntas sobre o tema, aprofundei a pesquisa. Várias fontes citam dados sobre os repelentes indicados contra o Aedes aegypti em que a duração de efeito da citronela é de 20 minutos. A origem desta informação é de um artigo de 2002 publicado no New England Journal of Medicine, a revista de maior impacto (em outras palavras, a mais respeitada) no meio médico. No estudo realizado foram comparadas diversas marcas de repelentes industrializados, alguns contendo o DEET, o repelente que está presente na maioria das marcas que conhecemos, e outros contendo citronela. Foram testadas também as pulseiras repelentes que fazem sucesso nas lojas de caça e pesca.

Os resultados, expostos na tabela abaixo, mostram que as pulseiras não têm efeito algum. A citronela tem efeito contra insetos, mas este efeito é fugaz, acabando logo por evaporar-se rápido demais. Ao contrário, todas as apresentações de DEET são eficazes por pelo menos 90 minutos e, no caso de concentrações elevadas, podem chegar a 6 horas. Vale relembrar que este estudo utilizou apresentações comerciais do óleo de citronela em diferentes concentrações e o resultado foi bastante decepcionante. Imagine então qual a eficácia do uso da receita que é mais difundida, em que é feita uma infusão com álcool e folhas da planta por 21 dias, sem qualquer controle da concentração do princípio ativo. Provavelmente vai ser ainda pior. Deste modo, pessoalmente não recomendo a citronela como um repelente, dada a necessidade de reaplicações em pouco espaço de tempo. Com muita boa vontade posso conceber um uso que teoricamente possa funcionar através das velas ou mesmo aspergidas no ambiente misturadas na água de umidificadores, mas sem qualquer embasamento comprobatório. Na melhor das hipóteses o aroma da citronela deixaria o ambiente mais agradável, ainda que com mosquitos.

repelentes - tabela

 

Não há muita informação atual sobre a obtenção do efeito repelente através a ingestão de produtos como alho, Complexo B e própolis. Em relação aos dois primeiros, não consegui acesso aos artigos originais, por serem bastante antigos (década de 60), mas pelo que pude apurar, já naquela época foram realizados testes que confirmaram não haver qualquer efeito repelente, sendo considerada uma questão já respondida e atualmente deve ser considerada como uma lenda urbana.

Já sobre o própolis, realizei a pesquisa e não localizei qualquer artigo publicado que tenha realizado tal comparação, o que nos impede de indicar o propólis com esta finalidade. A título de curiosidade, encontrei um estudo interessante mostrando que o uso do própolis pode elevar mais rapidamente as plaquetas em pacientes com dengue. Todavia, é uma pesquisa que, apesar de bem desenhada e com uma ideia interessante, é pequeno, com poucos pacientes arrolados, vários fatores de confusão (bias) como a população estudada e tipo do própolis utilizado e que foi publicado em uma revista de baixo fator de impacto. Desta maneira, acredito que esse assunto deveria ser melhor investigado antes de tirarmos qualquer conclusão definitiva e possamos prescrever própolis para nossos pacientes.

Além disso, existem aparelhos ditos “repelentes ultrassônicos“, que prometem espantar os mosquitos através da emissão de uma onda sonora inaudível aos seres humanos que teoricamente é desagradável aos insetos, além de aplicativos para celular com essa finalidade. Como era de se esperar, também não funcionam. Há uma revisão sistemática publicado na Cochrane em 2007 que selecionou estudos sobre este tema e concluiu que não há qualquer efeito repelente nestes aparelhos. Não caia nessa.

Concluindo: NÃO DEVE SER INDICADO O USO DE QUALQUER PRODUTO DE ORIGEM NATURAL COMO REPELENTE, POIS NÃO FUNCIONAM. A exceção é a citronela, que tem um efeito bastante curto e não deve ser indicado pois a necessidade de reaplicações a cada 20 minutos é impraticável e leva a falhas no efeito esperado. Complexo B, alho e própolis também não devem ser utilizados, por comprovar-se que não também funcionam (Complexo B e alho) ou por não haver pesquisas que demonstrem a eficácia (própolis)

 

Caso haja interesse, dois artigos bastante completos sobre o tema: um brasileiro (de onde extraí a tabela acima) e um argentino, que estão disponíveis para acesso livre e podem ser consultados a qualquer momento.

 

BÔNUS: Quer usar um repelente adequado? Siga a tabela abaixo. Com estes produtos, o efeito é garantido, porém o tempo de ação algumas vezes é superestimado. Na dúvida reaplique o produto; em crianças, podem ser realizadas 3 aplicações por dia, no máximo.

repelentes - tabela2

 

E aí? Vamos passar repelente?

Dr. Luiz Jorge Moreira Neto - Infectologista
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