Mais uma evidência ligando a microcefalia ao vírus Zika. Já podemos bater o martelo?

Hoje foi publicado um relato de caso que fortalece suspeitas de que o vírus Zika está associado à microcefalia em fetos.

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A revista New England Journal of Medicine, publicação de maior impacto no meio médico, postou hoje em sua página um artigo “ahead of print, ou seja, divulgado antes da revista ser posta em circulação, dada a relevância de seus dados. Descreve o caso de uma mulher de 25 anos, natural da Eslovênia, que estava no Brasil realizando trabalho voluntário na cidade de Natal-RN desde dezembro de 2013. Engravidou em fevereiro de 2015 e na 13a. semana de gestação passou a apresentar quadro clínico de febre alta, dores musculares e manchas no corpo, com suspeita de infecção por Zika. Na ocasião não se realizou qualquer exame para confirmar pois ainda não se sabia da relação entre o vírus e a microcefalia. A gestante realizou ultrassonografia na 14a. e na 20a. semana de gestação que não mostraram problemas no feto. Na 28a. semana gestacional ela decidiu retornar à Europa e lá realizou nova ultrassonografia na 29a. semana, que demonstrou os primeiros sinais de anomalias fetais e, na 32a semana de gravidez, confirmou-se a microcefalia associada a uma diminuição do crescimento fetal e diversas calcificações cerebrais e placentárias.

Na Eslovênia é possível realizar o aborto em caso de mau prognóstico de vida pós-parto e a paciente solicitou a interrupção da gravidez. Na necrópsia descobriram uma grande quantidade do vírus Zika no cérebro do feto. Exames realizados para outras doenças que podem causar microcefalia, como rubéola, citomegalovírus, herpesvirus, varicella-zoster vírus, parvovirus B19, Toxoplasma gondii foram negativos, bem como para outros vírus como dengue, chikungunya e vírus da febre do oeste do Nilo.

Em minha opinião, o fato deste estudo ter sido realizado no exterior confirma as posições do Ministério da Saúde e reforça nossas convicções de que o vírus Zika está relacionado ao surgimento de microcefalia nos fetos, mostrando ao mundo o problema em que estamos metidos. Ainda não temos respostas para a maioria das perguntas, como a maneira que o vírus lesa o cérebro dos fetos, como as gestantes podem se proteger de maneira mais eficaz, se existe algum medicamento que as grávidas podem tomar que evite a infecção dos bebês e, principalmente, se é possível evitar danos aos fetos depois que a infecção está instalada.

Mais que nunca, devemos agora manter nossa vigilância. Cuidados para evitar criadouros de insetos, administração de repelentes nas crianças e gestantes e não ter contato com o inseto, seja de que maneira for, são nossas únicas armas no momento.

Dr. Luiz Jorge Moreira Neto - Infectologista
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